28 dezembro, 2011

Fazer 30 anos

Affonso Romano de Sant'Anna

QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.
(13.10.85)

O texto acima foi extraído do livro "
A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 36.

17 novembro, 2011

Ponto de Vista







Não adianta. É do alto que se vê o todo e só de lá se vê além.

23 agosto, 2011

Foi assim.


Simples assim. Ontem estávamos aqui. Hoje você não está mais. Uma sensação inexplicável de vazio, uma ausência sem graça, um monte de lembranças. No final das contas é só o que fica. Sem nenhuma explicação.

Um atordoamento toma conta e a gente fica sem saber direito se é verdade. É, não dá mesmo para acreditar. Até porque não é justo.

Tantas coisas por fazer, desde as mais simples às mais complexas. Tantos planos. Todos perdidos no impossível. Nos vemos totalmente impotentes e então percebemos como somos pequenos e frágeis.

O tempo passa a contar de modo diferente e a gente perde a noção de quando ou como aconteceu. As lembranças se confundem e se misturam. Grandes hiatos e boas lembranças. Parece um filme que vimos a muito tempo e não lembramos direito. A não ser do final.

Quando paramos para pensar, anos se passaram e a sua história parou naquele dia. Meus capítulos continuaram inevitavelmente. O quê ficou? Lembranças confusas, saudade, vazio. A sua história acabou. Uma boa história. Quase sempre. Mas isso importa? O quê realmente importa agora? Difícil dizer.

Continuamos nosso caminho, com a certeza de que nada será de novo do mesmo jeito. Não somos mais os mesmos. Um pouco de nós ficou para trás também.
Leva um certo tempo para assimilar, um tempo maior ainda para aceitar e quem sabe parar de doer. O tempo passa a ser nosso lancinante aliado, ajudando a curar nossas feridas. Dolorosas horas, intermináveis dias, noites insones, semanas sem razão, meses de normal apatia e os anos passam lentos. O tempo continua sua marcha implacável e impiedosa. Sempre.

...Um mês sem Amy Winehouse

01 agosto, 2011

...

Tadinho do meu blog abandonado...
Meses sem nenhum post. Isso vai acabar, tá...prometo!

04 fevereiro, 2011

18 janeiro, 2011

Ôoooo vida boa!


...só fiquei na dúvida se eu gostaria de ser um dos atores da cena ou se preferiria ser o ser humano sem trabalho que fez essa arte!

12 janeiro, 2011

Il Milione

É da natureza do homem explorar tudo que o cerca. Desde pequenos somos levados a navegar os mares desconhecidos de nossa casa, com a mesma fascinação da descoberta que levou Marco Polo no século XIII a explorar o desconhecido. As novas paisagens e as terras distantes nos transformam. E queremos sempre mais. 

Hoje já conhecemos cada milímetro de nosso pequeno planeta, tudo foi mapeado, fotografado, filmado, documentado. Podemos percorrê-lo pelo Google Earth sem nem precisar sair de casa, mas ainda assim, nada se compara à experiência de se estar em terras distantes. O aprendizado é infinitamente melhor pois a viagem nos permite explorar os lugares com todos os nossos sentidos. Sentir o cheiro dos lugares, o gosto das comidas, o clima, as pessoas...são muitas experiências que certamente tem o poder de nos transformar. Nunca regressamos como fomos. E é tão bom voltar para nossa casa e poder vê-la com os nossos novos olhos, sentir o cheiro que deixamos ao partir. Lembramos de quem fomos, de quem partiu e não voltou.

As nossas perguntas nos movem pelo Universo e desejamos sempre ir mais longe. Procuramos romper as barreiras inóspitas do espaço, apesar de ainda estarmos longe de conseguir explorar os recônditos de nossa própria galáxia. Um dia navagaram  nossos mares e hoje queremos navegar o céu. Mas nossa casa sempre será aqui!


Imagem: Fotografia de Brasília tirada na madrugada de hoje (12.01.2011) pelo astronauta italiano Paolo Nespoli da Estação Espacial Internacional. Postada por ele em seu twitter: @astro_paolo.


"Cada um de nós é, na perspectiva cósmica, precioso. Se um ser humano discordar de você, não se importe. Em 100 bilhões de galáxias você não encontrará outro."
Carl Sagan, Cosmos 1980.